Somos convidados a fazer dieta do consumo
Essa é uma questão interessante, porque todas as datas festivas tem um apelo afetivo, mas, acaba prevalecendo o apelo comercial, mobilizado pela ideia da compra. Nós temos vários problemas aí. O primeiro é o que se compra. Além de ir ao shopping center comprar, como um problema meu, subjetivo, afetivo, psicológico, existencial, eu tenho também o problema da oferta. Vou a um shopping ou a uma loja e compro um produto de péssima qualidade em vários sentidos, não só porque ele é ruim, mas porque não está incluído nele os interesses da natureza, das populações mais pobres. Deveríamos antes de tudo, nestas festas, nos preocupar com a qualidade do produto, para não levar para casa coisas manchadas de trabalho escravo e desgastes ambiental. Do ponto de vista da subjetividade, temos que nos perguntar quais são os valores que nos ocupam. Nunca fomos tão afetados pela oferta dos produtos. O filósofo alemão Hans Jonas diz é fácil fazer dieta em tempo de escassez, mas é muito difícil fazer dieta em tempo de muita oferta. Então quando falo de ser simples, falo de uma dietética. O filósofo francês Michel Foucault diz que a ética diz não, cria regras. A dietética não, ela diz: se você quer, faça, mas faça bem, cuide de sua dieta. Então somos convidados hoje a fazer uma dieta de consumo. E essa dieta é uma espécie de uso adequado daquilo que estamos levando desta experiência. O consumo virou uma espécie de saída das frustrações do mundo contemporâneo. Os nomes que os sociólogos dão para a nossa sociedade não são nada honrosos. Se pega Zygmunt Bauman, sociedade líquida, amor liquido, não tem nada de sólido. Se você pensar no Eric Hobsbawm, a era dos extremos. Gilles Lipovetsky fala sobre a era do vazio, a era da depressão. Agora tem aquele coreano, Byung-Chul Han, que escreveu sobre a sociedade do cansaço. Temos uma série de autores diagnosticando que uma das características da nossa sociedade é justamente essa falta de referencias decisivas, essa crise de valores, que lá no século 19 Nietzsche chamou de niilismo. Martin Haidegger, no século 20, interpretou o niilismo de Nietzsche da seguinte maneira: se Deus morreu, morreram os valores supremos, portanto não tem nada de definitivo. Assim, nós ficamos sozinhos e temos como única tarefa um certo entretenimento com o mundo, que é o trabalho, uma espécie de exploração do mundo, fundamento da sociedade de consumo. Onde encontro hoje as utopias? Justamente na tecnologia. A tecnologia promete um futuro melhor, curar doenças, uma série de coisas. Então, nesse sentido, vivemos numa sociedade que tenta encontrar saída na posse de bens tecnológicos, no exercício do poder tecnológico, e isso nos leva ao consumo, porque toda essa tecnologia gera produtos. Preencho a minha vida com bens de consumo, porque estou em crise comigo mesmo, já não sou uma pessoa que tens valores definitivos. Enfim, a crise dos valores supremos leva, portanto, ao consumismo. Uma das marcas da sociedade de consumo é o descarte, a produção de lixo. Um autor norte-americano chamado Albert Borgmann diz que a complexidade dos nossos produtos torna a descartabilidade deles muito mais fácil. Por exemplo, o carro do meu irmão é um carro antigo, ele desmonta e monta aquele carro, tem uma relação afetiva com ele. O meu carro vem com um adesivo no motor que diz: “Não abra”. Se você abrir, perderá a garantia. E mesmo quando eu o levo ao mecânico, ele põe um fio e leva para o computador todas as informações; nem abre o meu carro. Os computadores e celulares tem uma usabilidade fácil, mas por dentro são muito complexos. Essa complexidade interna faz com que só alguns especialistas intendam aquilo. Um cidadão comum tem pouca relação com a coisa, porque ele não a entende, descarta. Isso também se reflete nas relações humanas. Eu tenho relações humanas muito mais orientados pelo descarte, porque a tecnologia passa a ideia de que nós podemos deletar, bloquear alguém, e isso resolve os problemas. Antes eu tinha que brigar, enfrentar a pessoa, tinha que discutir com ela cara a cara. Agora eu simplesmente deleto. Isso é um dos grandes problemas do nosso tempo, sem dúvida. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey