Uma estrada a minha frente
Vivendo este tempo quaresmal somos convidados a algumas atitudes em nossa caminhada de cristãos. Mudança, renovação, recomeço, superação do medo e da dor. O começo pode ser para nós um caminho que se abre, convidando-nos a renovar esperanças, e pôr em práticas propósitos sempre esquecidos ou pelo menos adiados. Podemos renovar a nossa maneira de ver as pessoas e os fatos, com mais reflexão e mais realismo otimista. Precisamos recuperar ou aprofundar a alegria que nasce do amor e da esperança. Por mais difícil que seja o mundo, nós o podemos fazer melhor e mais pacífico. De modo especial podemos rever nosso relacionamento com os companheiros de caminhada e com Deus nosso Senhor. Num e noutro caso certamente podemos ser pelo menos um pouco melhores e mais comprometidos. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”(Mt27,46). Quando estava na cruz, Jesus pronunciou palavras que expressavam o mais completo abandono. Na hora de seu maior sofrimento o Filho de Deus bradou: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste”? Teólogos debateram essa frase durante anos, mas uma coisa é certa: não é uma declaração de falta de fé. Trata-se da consequência de um trauma psicológico. Um trauma muito intenso nos dá uma imensa sensação de solidão. Se você já se sentiu abandonado por Deus em seu sofrimento, não é o único. O próprio Cristo experimentou esse tipo de dor. O autor C. S. Lewis escreveu no seu livro: O problema do sofrimento. “Enquanto isso onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, tão feliz que não tem nenhuma necessidade Dele… e se volta para ele com gratidão e louvor, é recebido de braços abertos. Mas vá até Ele quando estiver em desespero, quando tudo parece ter sido em vão, e o que encontrará? Uma porta fechada e o barulho de uma tranca sendo passada duas vezes. Depois disso, um silêncio. Você pode ir embora”. A franqueza de Lewis nos ajuda a entender a intensidade do sofrimento. O trauma provoca a sensação de que ninguém é capaz de nos compreender. Se a dor for muito grande, ela pode nos afastar das outras pessoas e até de Deus. Não é uma falha ou uma fraqueza. É uma característica do trauma do qual podemos passar um dia. Se isso acontecer, provavelmente nos sentiremos sozinhos e amedrontados. Embora a Bíblia não explique bem o por que dessa dor, ela nos oferece boas sugestões para lidar com ela. A coisa mais importante que Deus nos concedeu para que o sofrimento nos faça crescer, em vez de nos derrotar, é a Sua presença. Quando estiver sofrendo, volte-se para Ele e peça-Lhe para ser sua força. Ele prometeu estar presente para nos sustentar em momentos de necessidade. É assim que Deus cura a dor. Para isso precisamos estar sempre em continuo aprendizado na oração. Há quem diga que se conhece o cristão pelo modo de ele rezar. Óbvio supondo que ele reze de alguma forma e se habitue a isso. Nesse caso, em se considerando a oração em sua essência como ato de união com Deus e de estar ligado a Ele, trata-se de algo atraente e exequível. Torna-se prática que mexe com os sentimentos e costumes, determina o modo de viver a fé, de seguir a religião, de conviver com o próximo, de aderir à comunidade, de seguir exemplos dos antepassados. Que tal, quem esteja nessa prática e não faça de suas orações mais que palavras, passe a ouvir o Espírito Santo que mora no seu coração e reza no seu íntimo; que se exercite em se oferecer à Vontade Divina, em vez de pedir que ela transforme seus gostos e necessidades nem sempre espirituais. Longo e bom caminho está à frente de quem pretende aprender a rezar. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey.