A ARTE DE ESCUTARMOS A DEUS
“Dai-me a Sabedoria que partilha do vosso trono e não me rejeiteis como indigno de ser um de vossos filhos. Porque qualquer homem mesmo, mesmo perfeito, entre os homens, não será nada, se lhe falta a sabedoria que vem de vós.”(Sb 9,4-6) Somente através da Sabedoria que podemos conhecer a vontade de Deus. Somente através da Sabedoria que vem de Deus poderemos discernir a Sua vontade. DISCERNIR significa ouvir a voz de Deus. O Discernimento não é fácil. Por exemplo, quando Pedro cheio de amor e entusiasmo, sacou sua espada e cortou a orelha de um servo do sumo sacerdote, aquilo não foi um bom discernimento. O fato de algo ser bom em sua natureza, não é um critério para se discernir sua origem em Deus ou que seja da vontade de Deus. Por exemplo, quando o diabo tentou Jesus, convidando-o a transformar uma pedra em pão, o diabo não estava pedindo algo estranho. Ele sabia que Jesus era o Filho de Deus e consequentemente tinha o poder para transformar. Mas, Jesus rejeita porque este pedido não vem de Deus, mas, do diabo. Não há dificuldade alguma escolher entre o bem e mal. Se eu estiver em crise e sentir o desejo de ingerir bebida alcoólica… Bem, eu sei que Deus não me diria para fazer isso. Portanto, há momentos em que é mais fácil decidir porque é uma escolha entre o bem e o mal. Mas, uma grande dificuldade surge quando temos que escolher entre duas coisas que são igualmente boas. O Papa Bento XVI quando de sua posse falou: “Eu sei que vocês estão esperando de mim um plano para o meu pontificado, mas eu não tenho um plano. Eu devo na verdade, discernir dia após dia, qual é o plano de Deus e colocá-lo em prática”. Muitas vezes afirmamos que a principal característica do discernimento é exatamente a intimidade com Deus. Se não entrarmos nessa intimidade, especialmente por meio da oração pessoal, então fica muito difícil discernirmos aquilo que realmente Deus quer de nós. Apenas para dar um exemplo um tanto simples: Na vida de casados, quanto mais é vivida a intimidade, tanto menos há a necessidade da troca de palavras, porque a linguagem do corpo já seria suficiente para que o casal se entenda. Então se eu perguntasse à esposa: Como você sabe o que agrada e o que não agrada o seu marido? Provavelmente ela me responderia assim: eu simplesmente o conheço! Agora, conhecer realmente uma pessoa significa conhece-la com o coração, mais do que com a mente. Conheço uma laranja quando experimento seu sabor e não porque tenho algum conhecimento dessa fruta. Uma história que aconteceu num parque famoso e grande de Londres. Um jardim público onde muita gente vai aos domingos para relaxar. Tem um espaço onde qualquer pessoa pode fazer a sua manifestação, expressando sua opiniões sobre filosofia, religião ou outros temas. A plateia os ouve, grita, protesta e aplaude. Havia um homem que aparecia todos os domingos e proclamava altos brados que Deus não existe. Ele era um ótimo orador e por isso desafiava alguém a confrontá-lo em suas ideias. Mas ninguém ousava contradizê-lo. Finalmente um idoso se apresentou, subiu ao palco e colocou-se ao lado do orador. Este ficou feliz porque poderia caçoar daquele velho que ousou desafiá-lo. E eis que, a única coisa que este idoso fez foi tirar uma laranja do bolso e, muito tranquilamente, começou a descasca-la. Todos riam muito, e o orador estava ficando um pouco nervoso, uma vez que ele achou que o velho estava fazendo pouco caso dele. O que você está fazendo aqui? Perguntou o orador. Apenas descascando uma laranja, respondeu o velho calmamente. E o que você quer dizer com isso? O velho nada respondeu, e continuou calmamente a descascar a sua laranja. E depois começou a comê-la. Todos riam-se dele, menos o orador é claro. Por fim o velho voltou-se para aquele ateu e disse-lhe: Que tal o sabor da laranja? A esta altura o orador já estava bem zangado, e respondeu com raiva: “Como posso saber o sabor da laranja se você é o único que a está comendo?” E o velho respondeu é isso aí. Da mesma maneira que você não pode falar sobre Deus, porque você nunca O experimentou. Eu posso, porque eu O experimentei. Portanto desça daqui e me deixa falar sobre Deus. Conhecer Deus significa entrar em intimidade com Ele. Conhecer Deus só é possível experimentando-O. Então, se você não estiver numa caminhada em Jesus, você não consegue experimentá-lO, e obviamente não será capaz de discernir. Discernir é resultado de conhece-lo. Você sente qual é a vontade d’Ele, mas este sentimento não é apenas uma emoção, mas um constante provar, um constante experimentar Deus, daquilo que ele realmente quer de você. Pe. Bertilo João Morsch – Reitor do Seminário Maior São João Maria Vianey.